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sábado, 1 de maio de 2010

ALUNO ou CLIENTE?



O ensino privado no Brasil vem tornando-se objeto de mercado, e a lógica do capitalismo, ensejado na visão de alguns alunos como clientes, que se colocam numa condição de consumidores, subverte a ideologia de ensino de qualidade.
Estes alunos apresentam uma visão antagônica sobre o ensino e a instituição escolar: querem se formar numa instituição educacional reconhecida no mercado por sua qualidade e, ao mesmo tempo, que esta instituição lhes facilite a vida abrindo mão de suas presenças nas aulas, que os professores façam vistas grossas as “colas” durantes as provas e que, aceitem trabalhos entregues copiados da internet, entre outros.
Atitudes de alguns alunos, observadas em sala de aula:
• Acham que porque estão pagando mandam no esquema da aula, ditam como devem ser apresentados os trabalhos, as provas.
• Exigem seus direitos, como consumidores, mas não cumprem com seus deveres: o professor não pode chegar atrasado, ele, o aluno chega e sai da sala a hora que quiser; o professor tem que respeitar o aluno, enquanto o aluno, durante a aula conversa com os colegas, “lancha”, vende produtos, experimenta roupas, bijouterias, atende celular
• Atitude passiva: pagou pelo “produto” e quer que o diploma lhe seja entregue, sem o menor esforço. O professor é sempre o responsável se ele ficar com nota baixa e ser reprovado.
• Não assume responsabilidade pelos seus atos: estoura em faltas e, no final do semestre quer que o professor “de um jeitinho” e lhe dê presença, mesmo tendo faltado, sem apresentar atestado.
Ensino não é uma mercadoria, “um produto de prateleira” colocado à venda nas instituições de ensino. O nosso maior papel como educadores é formar, antes de tudo, cidadãos. O conceito de cidadania aplicado hoje em dia é amplo, mas existe uma definição básica: ser cidadão é ter o pleno conhecimento de nossos direitos e, também, de nossos deveres.
Uma professora que dá aula em três IES em São Paulo atribui a postura abusiva dos alunos não só ao fato de serem pagantes, mas a uma característica da geração: a falta de responsabilidade e de noção de limites.
Segundo ela “a palavra "cliente" carrega a idéia de passividade, objeto da ação dos outros. Quem vai ao dentista é um cliente que não pode em nada colaborar para que o seu trabalho fique bom. A quem compra um produto, só lhe resta conferir se está de acordo com as especificações. O aluno, não. Ele é o sujeito de sua educação, é o centro da escola, é o ator principal de uma grande epopéia. A escola oferece meios, prédios, equipamentos, biblioteca. O professor deve ter a consciência de que é apenas um facilitador, sua função cresceu em nobreza e, mais que nunca, é insubstituível.
A Professora Claudia Rizzo, da USP, na sua tese de doutorado escreve: “No meu modo de ver trata-se de uma ligeira falta de compreensão sobre pelo que se pagou. O aluno não comprou a instituição, nem o professor e não paga a mensalidade para fazer o que bem entende (e, diga-se de passagem, muitos desses "clientes" não fazem em casa ou no trabalho 10% do que fazem na instituição pois seriam escorraçados de pronto). Ele pagou por um serviço que será prestado por uma instituição autorizada para fazê-lo e que se submete periodicamente a avaliações diversas. Um curso não é algo tirado da cartola. Pessoas se reúnem para verificar que tipo de formação aqueles alunos precisam ter e têm a competência suficiente para determinar os rumos que a instituição e os cursos devem tomar. Para mim, o aluno sempre é bem-vindo para contribuir com sugestões, críticas e questionamentos que fazem com que o processo possa ser continuamente aprimorado. Mas entre isso e achar que tem total autoridade sobre o professor, sobre o conteúdo do curso, das aulas ou sobre a forma como esse professor conduz os trabalhos existe uma diferença abissal. Ou pelo menos deveria haver.”
Cláudia aponta que dentro da universidade o aluno pode ser considerado um “produto em transformação”, ou seja, ele entra na instituição como aluno, mas sai dela como profissional. Ao longo dos anos de estudo, receberá um treinamento que o transformará em um profissional. “Se a IES quiser oferecer ao mercado um profissional altamente qualificado, deverá cobrar desempenho do aluno. Por isso, dentro de sala de aula, ele não poderá ser considerado um cliente. E é dever do professor cobrar desempenho e dedicação do aluno, pois é por meio desse treinamento que ele vai se transformar em um bom profissional”, explica.
O aluno que se considera como cliente tem uma concepção equivocada do que é a educação, pois as instituições de ensino não vendem saber, ou competências.
O que nos anima, enquanto professores, é o fato de que nem todos, em sala de aula, se portam como cliente e sim como alunos e quando passam da condição de alunos para profissionais, bons profissionais, fazem nossa profissão valer a pena.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Hoje sexta feira...

Segue a última parte do texto "Ética e Moral na Escola", de Paulo Ghiraldelli Jr. Desejo a todos uma excelente sexta-feira. Beijos...


O que ocorre na escola quando um aluno desconsidera ou mesmo agride um professor ou outros colegas?

Não se trata de um problema novo quando a questão é moral. Aluno “sem educação”, “sem berço”, como diziam as pessoas no passado, sempre existiu, existe e vai continuar existindo.

Quando os professores reclamam de faltas morais, eles não nos contam nada de novo. O novo seria, então, o possível aumento de atitudes que desconsideram a ética, ou seja, condutas que desrespeitam o que deveríamos seguir no âmbito da esfera pública, levadas adiante por jovens que, uma vez na escola, deveriam ali aprender a como se comportar na esfera pública – pois na esfera privada deveriam seguir os pais, ainda que se possa argumentar que isso não seria interessante diante da “pobreza” ou “do modo que a família estaria se fazendo atualmente”.

Assim, desrespeito verbal ao professor ou aos colegas pode ser um início de uma conduta moralmente indesejável, revelando uma atitude de “falta de modos” no âmbito familiar, e se enquadrando no campo da “falta moral”. Mas esse mesmo desrespeito verbal ao professor, se evoluiu para a idéia de que todo e qualquer aluno que faz a mesma coisa está agindo corretamente, “tem esse direito”, então o indivíduo que assim pensa e age está a um passo de começar a cometer “falta ética”. A escola como um todo, enquanto instituição social – uma instância da esfera pública – é um local em que todos da sociedade legitimaram e assim fizeram legitimando também funções que deveriam funcionar da seguinte maneira: o professor ali dentro é uma autoridade intelectual e moral, e o aluno ali dentro é alguém que, em princípio, deve segui-lo.

Quebrar essas regras não como indivíduo “sem modos”, mas como aquele que subverte o éthos, querendo que na escola não valha mais a autoridade intelectual e moral do professor, isso é uma “falta ética”.

É claro que cada caso é um caso. Leis gerais, sem ter o caso na mão, não valem. O desrespeito ao professor por parte de um aluno precisa ser caracterizado como desrespeito naquilo em que o professor está legitimado, por estar na escola, a fazer. Então, é necessário que tenhamos a história do caso na mão para qualquer julgamento.

Mas, no ponto de partida, devemos saber onde é que há a “falta moral” e onde é que há a “falta ética”. Se não sabemos isso, não saberemos qual tipo de punição aplicar. Pois “falta moral” pode ou não receber punição escolar. Muitas vezes é melhor que receba punição em seu local próprio, no lar. Mas a “falta ética”, nesse caso não: obrigatoriamente ela envolve a punição dada pela escola.

Psicólogos, filósofos da educação e outros, atualmente, confundem isso tudo. Então, aplicando as punições sem qualquer critério, criam pais revoltados, jovens deseducados, escolas fora de sintonia com a vida culta. Essas pessoas vivem dando entrevistas em revistas de educação, reiterando Adão e Eva. No caso, Adão olhou para seu filho como quem poderia deixar a briga acontecer, pois disputa entre irmãos seria disputa entre irmãos – seguindo a idéia de “extravasamento” da moral de Eva. Mas o fim foi o que conhecemos: Caim cometeu uma “falta ética”. No âmbito da cidade, matar é crime.

Suspensão do aluno das aulas e comunicação disso aos pais por causa de que o aluno disse ao professor “seu filho da puta”, pode ser um erro. Não digo que é um erro. Pode ser. Pois “seu filho da puta” pode ser um palavrão que indica uma “falta moral”, poderia ter sido corrigido em casa e, na falta da casa, pelo professor, em uma situação particular, fora da sala de aula – privadamente. Educação é educação moral, também.

Então, o professor, vendo isso, pode tentar entrar nessa seara que, enfim, sempre vai ser privada. Ele pode conversar com o aluno e “dar uma de pai”. Ver em que medida o linguajar, talvez permitido em casa, não seja bom em casa e seja pior fora dela, etc. Há mil e uma maneiras de mostrar, pragmaticamente, a desvantagem do palavrão.

Mas se o aluno monta um esquema ou uma situação para que o professor ou um colega seja visto como um “filho da puta” (uma pessoa sacana, bandida) sem o ser, então há uma falta ética. Pois nesse caso, não se trata do José da Silva, professor, que está sendo atingido, mas o Professor José da Silva.

Nesse caso, a instituição escolar enquanto instituição pode ter um código (de ética) que prevê punições, uma delas seria a suspensão da freqüentar as aulas por alguns dias, e a comunicação disso aos pais.

Se situações de “falta moral” e “falta ética” não são distinguíveis, nem mesmo chamando um filósofo da educação no local, então realmente as coisas vão mal. Daí para o professor e a própria escola perderem a legitimidade social que possuem, é um só passo. Não seria isso o que, em parte, está ocorrendo?

É triste ver que mesmo filósofos, uma vez envolvidos com o ensino, não saibam distinguir isso e tenham dificuldades de falar de ética e moral no âmbito da escola. É triste que eles voltem a culpar o professor ou a inventar frases reacionárias para suas entrevistas em periódicos ou na TV. Isso cansa. Isso poderia parar.
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